Você provavelmente já ouviu falar de um prato que leva 7 dias para ficar pronto devido ao seu “veneno”. Trata-se da maniçoba, uma receita típica do Norte do Brasil cuja base é a maniva, o nome dado à folha da mandioca moída.

Segundo Mauricio Lopes, professor do curso de gastronomia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, quando pensamos na maniçoba, estamos falando sobre as folhas da mandioca-brava, uma variedade da raiz que possui ácido cianídrico. Para ser apta ao consumo, precisa passar pelo longo tempo de cozimento.

Modo de preparo e cuidados

“Para o preparo e consumo da maniçoba, é necessário remover as toxinas cozinhando as folhas de mandioca-brava por um período prolongado para garantir a retirada de todas as substâncias tóxicas. Caso se pule este processo, pode resultar em riscos graves à saúde”, explica Juliane Casas, nutricionista e coordenadora do curso de Nutrição da Faculdade Anhanguera.

Além disso, a especialista destaca a necessidade de lavar e higienizar os ingredientes além da maniva, incluindo as carnes, a fim de evitar contaminação. Devido ao longo tempo de preparo, também indica-se armazenar na geladeira para evitar surgimento de microrganismos prejudiciais à saúde.

Origem

A maniçoba é um prato feito a partir das folhas da mandioca-brava

A maniçoba é um prato feito a partir das folhas da mandioca-brava – Foto: Shutterstock

“Como se chegou nesses sete dias de cozimento, que é o tempo levado no preparo da maniçoba, ninguém sabe. Todo mundo que pesquisa a maniçoba se pergunta quantos morreram até eles entenderem que a mandioca-brava tem ácido cianídrico e como retirá-lo no processo de cozimento. Mas povos originários da região acreditam que a natureza contou a resposta. Então com o tempo eles foram entendendo”, conta o professor.

No passado, quando quem preparava a receita eram os indígenas, ela levava apenas a folha de mandioca. Foi com a chegada do colonizador, e também dos africanos escravizados, que o cozido de folhas começou a ser incrementado com carnes de porco e boi, passando a ficar muito semelhante à feijoada que conhecemos hoje.

“Muitos dizem que foi justamente para substituir o feijão, que é um produto mais caro, pelas folhas da maniçoba”, aponta Lopes. “A maneira de preparo e os ingredientes que compõem a maniçoba são muito parecidos com a feijoada, inclusive até o aspecto escurecido, com as carnes, lembra a feijoada. Por isso, muitos falam que é a feijoada do Pará”. 

Círio de Nazaré

Apesar de ser muito popular no Norte, o preparo da folha cozida da mandioca também é encontrado em outras regiões do Brasil. De acordo com Lopes, isso acontece porque a mandioca é um alimento nosso, e indígenas de todo o país a entendiam e tiravam seus subprodutos.

Ainda assim, pode-se dizer que a maniçoba do Pará é definitivamente a mais conhecida. E tem um motivo especial para isso: o Círio de Nazaré. “É uma tradição em que se prepara a maniçoba, em casa, durante as três semanas de comemoração [procissão à Nossa Senhora de Nazaré que acontece todo segundo domingo de outubro em Belém]. Eles começam a fazer na segunda-feira para comer no sábado e domingo”, explica.

Valor cultural e nutricional

“Os benefícios da maniçoba geralmente se concentram em seu valor cultural e gastronômico, proporcionando uma experiência culinária única. A maniçoba é um prato rico em sabor e tradição, mas vale ressaltar que seus benefícios à saúde podem ser limitados devido ao seu alto teor calórico e de gordura, assim como seu processamento prolongado. É importante consumir o prato com moderação e equilíbrio devido às características de seus ingredientes”, aponta a coordenadora.

A maniçoba contém proteínas (presentes nas carnes, como carne de porco e boi, linguiça e bacon), fibras (provenientes das folhas de mandioca), carboidratos (de eventuais acompanhamentos, como arroz branco e farinha) e gorduras (derivadas das carnes, bacon e óleo usado no preparo). As vitaminas e minerais do prato são encontradas em menor escala graças ao longo tempo de cozimento.