A forma com que nos alimentamos afeta nossa saúde, isso já está claro para a maioria das pessoas. Mas você sabia que o que comemos também atinge, especificamente, a nossa saúde mental? Essa relação ficou clara para cientistas da Universidade Deakin, da Austrália. Eles publicaram, em julho, um artigo na revista científica Nutrients descrevendo como alimentos ultraprocessados podem estar associados a doenças mentais.

No texto, os pesquisadores apontam como o maior consumo de produtos ultraprocessados foi transversalmente associado a maiores chances de sintomas depressivos e ansiosos, além de outros transtornos mentais.

Segundo um relatório recente do Global Burden of Disease Study, ainda que exista maior disponibilidade de tratamento para essas doenças, a exemplo do aumento de prescrições, não houve redução na carga de transtornos mentais desde 1990.

Um dos possíveis fatores para a manutenção desse cenário é a má qualidade da alimentação que atinge a população mundial. A nutricionista e mestranda pelo Sírio-Libanês Ensino e Pesquisa, Laís Murta, explica que isso se torna um alto fator de risco para o desenvolvimento desses transtornos.

O que acontece quando consumimos ultraprocessados?

Como aponta a nutricionista, ao consumir ultraprocessados, esses alimentos são responsáveis por alterar a flora intestinal, desequilibrando-a. Esse processo prejudica a saúde como um todo, inclusive a saúde mental.

“A alimentação é o principal modulador da microbiota intestinal, uma vez que fornece os substratos energéticos [alimentos] para as bactérias simbióticas [boas], promovendo o equilíbrio da microbiota”, acrescenta Laís.

O que são alimentos ultraprocessados?

Você provavelmente já ouviu falar muito sobre ultraprocessados. Eles são quase sempre formulações industriais feitas a partir de partes de alimentos. Segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, o consumo deve ser evitado, já que são alimentos “pobres nutricionalmente e ricos em calorias, açúcar, gorduras, sal e aditivos químicos, com sabor realçado e maior prazo de validade”.

Esses produtos geralmente são mais convenientes no dia a dia, o que os torna mais atrativos. Por não ter a necessidade de um preparo ou cozimento, eles acabam sendo escolhidos no cardápio. Alguns exemplos são cereais matinais, sucos artificiais, bolachas, embutidos e pratos prontos.

“O problema é que o consumo excessivo desses alimentos está cada vez mais associado a doenças crônicas, cardiovasculares e, com cada vez mais dados científicos, aos transtornos mentais”, explica a nutricionista.

Por isso, Laís ressalta a importância de corrigir esses desequilíbrios com uma alimentação saudável e equilibrada. Uma “comida de verdade” é essencial para evitar doenças, funcionando como principal estratégia para fortalecer a saúde, inclusive mental.

“Por isso sempre digo que é importante ‘descascar mais e desembrulhar menos’”, destaca ela. “São nos alimentos in natura e naqueles minimamente processados (mais naturais, sem conservantes e aditivos) que encontramos mais vitaminas, polifenóis e outros nutrientes fundamentais para o equilíbrio do organismo”.

Como ter uma alimentação saudável?

É muito importante consumir alimentos ricos em vitamina B6, vitamina D, zinco, ômega 3, ômega 6, vitamina B9 e vitamina B12. Esses nutrientes são essenciais para o bom funcionamento do sistema nervoso central. Para garanti-los em seu organismo, a nutricionista recomenda acrescentar em seu cardápio:

Gorduras ômega-3

Você pode consumir peixes de água fria e oleosos como salmão (selvagem), cavala e sardinha para garantir gorduras ômega-3 na sua alimentação. Outra opção é ingerir sementes, como a de linhaça ou de chia.

Alimentos fermentados

Extremamente benéficos para a saúde mental, os alimentos fermentados também são ótimas alternativas para quem quer focar na saúde. Iogurte, kefir, chucrute e queijos “vivos” contêm micróbios saudáveis e são ótimos corrigir desequilíbrios.

Prebióticos

Grãos integrais, nozes, sementes, frutas e vegetais são carboidratos complexos ricos em fibras prebióticas que funcionam como “alimento” para as bactérias intestinais. Esses prebióticos podem ajudar a reduzir o hormônio do estresse, melhorando o equilíbrio da microbiota intestinal.

Polifenóis

Cacau, chá verde, azeite e café são alimentos que contém polifenóis. Essas substâncias também servem de prebióticos, ou seja, ajudam a melhorar a composição da microbiota intestinal.

Triptofano

Por último, a nutricionista também indica incrementar sua dieta com alimentos ricos em triptofano, como peru, ovos, grão de bico e queijo. No neurotransmissor, esse aminoácido é convertido em serotonina.

Fonte: Laís Murta, nutricionista e mestranda pelo Sírio-Libanês Ensino e Pesquisa.